Em participação no podcast Danilo Talks, a assessora de investimentos Cíntia Ribeiro, sócia fundadora da Equilíbrio Capital e traçou um retrato do investidor brasileiro e explicou por que guardar dinheiro sem estratégia não é o mesmo que protegê-lo.
Com 20 anos de mercado financeiro, Cíntia decidiu abrir seu próprio escritório para atuar de forma mais próxima do cliente. No podcast, ela detalhou os números que explicam o comportamento financeiro do país, os riscos de investir por comparação e os bastidores de uma gestão patrimonial bem-feita.
A maioria do país está de fora do jogo
Segundo dados citados pela assessora, com base em levantamentos da Anbima, apenas um terço da população brasileira investe. Os outros dois terços não têm nenhuma aplicação financeira — e boa parte deles está, na prática, do lado oposto do balanço: como tomador de crédito, cartão ou financiamento.
Entre quem investe, a concentração em bancos tradicionais ainda é grande: cerca de 80% dos recursos permanece nessas instituições, contra 20% em corretoras. Há cinco anos, essa proporção era de 95% para 5% — um sinal de que o mercado está mudando, mas devagar.
O ponto mais contundente da entrevista foi a conta que Cíntia fez sobre a poupança, onde estão parados hoje cerca de R$ 900 bilhões dos brasileiros. O produto rende, em média, de 6% a 8% ao ano — número que parece bom até entrar em cena a inflação, que fica em torno de 5% ao ano (4,44% nos últimos 12 meses).
“Você tem uma aplicação financeira que rende seis e a inflação acaba consumindo a rentabilidade”, resumiu a assessora. O resultado é um ganho real de apenas 1% ao ano. Para ela, esse é o cerne do problema: muita gente confunde guardar dinheiro com protegê-lo, quando na verdade está apenas adiando uma perda silenciosa de poder de compra.
CDB: bom começo, mas não ponto final
Outro protagonista da conversa foi o CDB, cada vez mais popular por meio dos bancos digitais. Cíntia o descreveu como “a primeira linha de investimento” para quem está começando — uma alternativa que rende mais do que a poupança, mas que exige atenção às taxas e à instituição emissora. Segundo ela, é exatamente nesse ponto que a assessoria financeira faz diferença: escolher o CDB errado pode significar deixar rentabilidade na mesa sem nem perceber.
Cíntia também alertou para um comportamento cada vez mais comum: montar carteira comparando com o que deu certo para outra pessoa, muitas vezes influenciado por redes sociais e ferramentas de inteligência artificial. Para ela, esse é um dos principais motivos de frustração entre quem investe sozinho — porque cada investidor está em um momento de vida diferente, e o produto certo para um pode ser exatamente o errado para o outro.
A assessora reconhece o avanço da inteligência artificial como apoio, mas defende que a assessoria financeira humana continua insubstituível, justamente por depender de um conhecimento profundo do cliente antes de qualquer recomendação — processo que ela chama de gestão patrimonial.
Como nasce uma carteira de investimentos
O primeiro contato com um cliente, segundo Cíntia, é uma conversa longa: qual é o perfil, quais são os sonhos, onde a pessoa está hoje e aonde quer chegar. A partir daí, a estratégia é desenhada de acordo com o perfil identificado:
- Conservador — CDBs, LCAs, títulos públicos e fundos de renda fixa, priorizando segurança;
- Moderado — a maior parte em renda fixa, com uma fatia em fundos imobiliários e uma parcela menor em ações;
- Arrojado — mais concentração em ações, crédito privado, CRI e CRA, com maior tolerância a risco em troca de retorno mais alto.
Ela também citou os títulos públicos como opção que vem pagando bem no cenário atual, ainda que o risco esteja atrelado à capacidade de pagamento do próprio governo — o chamado “risco Brasil”.
Gerente de banco x assessor independente: de que lado você está?
Um dos momentos mais diretos da entrevista foi quando Cíntia explicou, com propriedade de quem já esteve nos dois lados do balcão, a diferença entre o atendimento bancário tradicional e a assessoria independente: “O gerente de banco trabalha para o banco. Eu, como assessora financeira, trabalho para você.”
Segundo ela, dentro do banco existem “produtos de prateleira” — consórcio, capitalização, previdência — que o gerente é orientado a oferecer, independentemente de serem ou não a melhor opção para aquele cliente específico. Já na assessoria independente, a recomendação é filtrada pelo mercado inteiro, moldada ao perfil de cada pessoa — inclusive empresas, que contam com serviços como gestão de fluxo de caixa para rentabilizar recursos parados em conta corrente.
O apego ao imóvel que trava o patrimônio
A conversa também tocou em um traço cultural forte na região de Feira de Santana: a preferência por investir em imóveis. Cíntia pondera que esse tipo de patrimônio tem um custo escondido — quando o dinheiro precisa ser resgatado rapidamente, o proprietário muitas vezes precisa vender com deságio para conseguir liquidez. Sua recomendação é simples: não deixar todo o patrimônio “imobilizado”, mantendo parte dos recursos disponível para aproveitar oportunidades.
Nada acontece sem a aprovação do cliente
Questionada sobre a transparência do trabalho, Cíntia explicou que toda movimentação — cada aplicação, cada troca de título — passa por validação do próprio cliente dentro de um aplicativo, funcionando como uma dupla camada de segurança. O contato consultivo costuma ser mensal, com revisões de carteira em uma média trimestral.
De Feira de Santana ao Nordeste
Hoje a Equilíbrio Capital opera com cinco assessores, atendendo Feira de Santana, Salvador e parte de João Pessoa, com expansão prevista para Fortaleza. Segundo Cíntia, boa parte do crescimento da carteira de clientes acontece por indicação — o que reforça, mais uma vez, o argumento central da entrevista: em um mercado saturado de informação e tendências, a confiança construída com um assessor humano continua sendo o diferencial mais difícil de copiar.
Ao encerrar sua participação, a assessora deixou um alerta direto para quem ainda mantém dinheiro parado: com a taxa Selic em 14% ao ano e a inflação acumulada em 4,44% nos últimos 12 meses, quem tem R$ 1 milhão sem nenhuma aplicação financeira perde, na prática, cerca de R$ 44 mil de poder de compra por ano — só por ficar parado.
Seu convite foi simples: revisar a carteira, olhar o que está parado no banco e buscar orientação especializada antes de tomar qualquer decisão isolada.
