Numa fábrica na Bahia, mais de 80% da matéria-prima que vira produto acabado não sai do petróleo — sai do lixo. É o caso da Realce Indústria, que há 22 anos atua no estado e hoje é uma das protagonistas da economia circular no setor plástico baiano. Em entrevista ao programa Danillo Talks, o empresário Tiago Mota, à frente da companhia, detalhou como funciona esse processo, os desafios do mercado de plástico reciclado e por que, segundo ele, o vilão não é o material, mas o descarte inadequado.
“Tudo que a gente faz hoje tem plástico envolvido”, resume Mota. Da garrafa d’água à sola do sapato, passando por roupas, relógios e componentes da própria casa, o material está em praticamente todos os aspectos do cotidiano. Por ser derivado do petróleo, no entanto, o plástico também está sujeito às oscilações geopolíticas do mercado de commodities. Mota cita como exemplo o recente embargo no Estreito de Ormuz, que travou a saída de petróleo e provocou disparada nos preços — um dos fatores que, segundo ele, têm acelerado a migração da indústria para o plástico reciclado.
Um dos pontos centrais da conversa é desfazer a ideia de que produto reciclado é sinônimo de qualidade inferior. “Se o processo de reciclagem for feito da forma correta, você tem um produto tão bom quanto o fabricado com material virgem — às vezes até melhor”, afirma. A exceção fica por conta de embalagens em contato direto com alimentos, que exigem plástico virgem: o processo de termoformagem repetido pode liberar partículas do material, comprometendo a segurança do produto. Já itens como capas de celular, solas de calçado e, sobretudo, tubos e mangueiras para construção civil podem ser reprocessados diversas vezes sem perda relevante de propriedades físicas e mecânicas.
Mota dedica parte da entrevista a reconhecer o papel dos catadores, que chama de “trabalhadores invisíveis” da reciclagem. Historicamente associados a lixões e condições precárias, esses profissionais têm ganhado mais visibilidade com o avanço de políticas públicas e da pauta ESG. A Realce mantém parceria com cooperativas em Feira de Santana e Salvador, que centralizam, separam e fornecem o material à indústria. Mota, porém, critica a presença de atravessadores nessa cadeia, que encarecem o processo para a indústria sem repassar ganhos justos à ponta: “Tinha gente que passava a semana toda coletando material e chegava no sábado ganhando R$ 20.” Para driblar esse gargalo, a empresa mantém um ponto de coleta seletiva na própria fábrica, aberto à comunidade — iniciativa que, segundo ele, superou o ceticismo inicial da vizinhança.
Da recuperadora à mangueira zero carbono
O processo produtivo começa com a separação por tipo de resina — polipropileno (PP), polietileno de alta densidade (PAD) e policarbonato, este último usado em peças que exigem transparência, como faróis de veículos e lentes de óculos. Depois de retirados rótulos e tampas, o material passa por pré-lavagem, aglutinação e por uma recuperadora, equipamento que usa telas de aço inox e controle de temperatura para eliminar impurezas e outros tipos de plástico misturados — cada resina tem um ponto de fusão diferente, o que permite filtrar o que não interessa ao processo.
O produto-carro-chefe da empresa, a mangueira corrugada — premiada pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) —, é fabricada com 100% de material reciclado, a partir de frascos de shampoo, detergente e água sanitária. Somada ao uso de energia solar e captação de água da chuva na produção, a linha é classificada pela empresa como “zero carbono”. Já itens que exigem acabamento estético em cores claras, como luminárias brancas, ainda dependem de plástico virgem, pela escassez de reciclado nessas tonalidades — a maior parte do material reciclado disponível é escuro.
Expansão, reconhecimento e o que vem por aí
Fundada há 22 anos, a Realce começou montando chicotes elétricos para a Ford e se reinventou no setor de materiais de construção após o fim do contrato com a montadora. Hoje emprega cerca de 70 pessoas diretamente e, por meio das cooperativas parceiras, impacta mais de 40 municípios baianos. A empresa atende os mercados de Bahia, Sergipe e Alagoas, participou pela quarta vez consecutiva da feira Construir Nordeste e ganhou repercussão nacional após reportagem no programa Pequenas Empresas Grandes Negócios, recebendo contatos de estados como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Um vídeo institucional da empresa também foi exibido durante a COP30, em parceria com o Sebrai.
Mota vê no fortalecimento da legislação de logística reversa — que deve obrigar indústrias a reciclar volume equivalente ao de material virgem que produzem — uma tendência que deve acelerar ainda mais a demanda por reciclados nos próximos anos. Para se preparar, a Realce tem promovido capacitações com cooperativas de catadores em parceria com o Sebrai, por meio do programa Procatadores, levando grupos para conhecer de perto a tecnologia usada na fábrica.
“O plástico não é o vilão — ele é a solução”, resume Mota. O desafio, segundo ele, está menos no material e mais na forma como a sociedade e o poder público ainda lidam com seu descarte.
