Em entrevista ao podcast Danilo Talks, o cardiologista Dr. Edval Gomes explica quais são os sintomas do infarto do miocárdio, por que ele pode não causar dor no peito, e alerta sobre o uso de anabolizantes disfarçados de “suplementação” entre atletas amadores
O infarto do miocárdio continua sendo uma das principais causas de morte no Brasil, e boa parte das pessoas não sabe reconhecer os sinais a tempo. É o que alerta o cardiologista Dr. Edval Gomes, em entrevista ao podcast Danilo Talks. Segundo o médico, o infarto nem sempre avisa com dor no peito — e pode se manifestar de forma silenciosa, inclusive em pessoas jovens e fisicamente ativas.
Infarto é o termo médico usado para a morte de um tecido causada pela interrupção do fluxo sanguíneo. Quando essa morte ocorre no miocárdio, o tecido do coração, tem-se o infarto do miocárdio propriamente dito. A causa mais comum é a aterosclerose: placas de gordura que se acumulam e obstruem progressivamente as artérias do coração, até bloquear o fluxo sanguíneo necessário para nutrir o músculo cardíaco.
Os sintomas, segundo o cardiologista, podem variar bastante de pessoa para pessoa. O mais característico é a dor ou aperto no peito, geralmente sentida atrás do osso central do tórax, descrita como um peso ou pressão intensa — uma paciente, contou o médico, certa vez descreveu a sensação como “um elefante pisando no peito”. Também é comum a queimação ou ardência, às vezes confundida com gastrite ou refluxo, além de falta de ar e cansaço maior que o normal durante esforços do dia a dia. Em mulheres, diabéticos e idosos, a apresentação costuma ser mais atípica, manifestando-se como um mal-estar ou uma agonia difícil de descrever. Um ponto de atenção importante é a duração: a dor do infarto costuma durar de minutos a poucas horas — nunca apenas segundos, nem semanas. Segundo o Dr. Edval Gomes, qualquer desconforto nesse padrão deve levar a pessoa a procurar atendimento médico imediatamente, independentemente de como o sintoma se manifesta.
Mas nem todo infarto avisa com dor no peito. Um dos alertas mais importantes feitos pelo cardiologista na entrevista é que a principal manifestação — e a mais temível — é a morte súbita. Em boa parte dos casos, o infarto pode se apresentar diretamente como uma parada cardíaca, sem sintomas prévios perceptíveis, o que reforça a importância da prevenção e do controle constante dos fatores de risco, já que nem sempre há um sinal de alerta para se basear.
O aumento de casos de infarto entre pessoas mais jovens também foi um dos temas centrais da conversa. Segundo o médico, esse crescimento não tem uma explicação única: parte dele se deve ao maior acesso a diagnóstico médico e exames, e também à maior quantidade de informação disponível sobre o assunto hoje em dia. Mas há, sim, um aumento real, explicado em boa parte pelo acúmulo de fatores de risco em idades cada vez mais precoces — jovens hipertensos, com colesterol alto, diabetes, obesidade, uso de drogas e, cada vez mais, uso de anabolizantes.
Sobre os fatores de risco de forma geral, o Dr. Edval Gomes cita sete fatores tradicionais reconhecidos pela cardiologia. Três deles são não modificáveis: ser do sexo masculino, ter idade avançada e possuir histórico familiar de eventos cardiovasculares precoces — um pai, mãe ou irmão que tenha sofrido infarto ou morte súbita antes dos 55 anos, no caso dos homens, ou antes dos 65, no caso das mulheres. Os outros quatro são modificáveis, ou seja, podem ser tratados e controlados: hipertensão, diabetes, colesterol alto (dislipidemia) e tabagismo.
Um dos pontos mais fortes da entrevista é o alerta do cardiologista sobre o uso crescente de anabolizantes entre atletas amadores, muitas vezes disfarçado sob o nome de “suplementação”. Segundo ele, tratam-se, na prática, de reposições inapropriadas de testosterona, escondidas atrás de diversos eufemismos. O uso indevido dessas substâncias está associado a riscos graves à saúde, como câncer de próstata precoce, infarto precoce, cardiomiopatias e arritmias cardíacas graves. “Não percebo isso como algo natural. Acho que tem alguma coisa errada”, resume o médico, que também chama atenção para o uso concomitante de drogas ilícitas, como cocaína e maconha, entre praticantes de esporte — um comportamento que classifica como um verdadeiro paradoxo, já que essas pessoas dizem estar em busca de uma vida mais saudável.
Apesar desse alerta, o cardiologista é enfático ao afirmar que o exercício físico faz muito bem ao coração: é um protetor cardiovascular reconhecido e deve ser praticado pela grande maioria das pessoas, inclusive por pacientes cardiopatas em quadro estável. Ainda assim, alguns sinais indicam a necessidade de uma avaliação cardiológica prévia ou durante a prática esportiva — dor ou desconforto no peito durante o esforço, cansaço ou falta de ar maior que o habitual, histórico de cardiopatia, presença de fatores de risco como hipertensão e diabetes, ou a prática de exercícios de alta intensidade, como longas distâncias em corrida ou ciclismo.
A entrevista também abordou a relação entre ansiedade, estresse e risco cardiovascular. Segundo o médico, o excesso de informação e a ansiedade constante, agravados pelo uso intenso de tecnologia no dia a dia, geram liberação contínua de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, que podem impactar negativamente o sistema cardiovascular. Ainda não existe um número exato sobre esse risco nas diretrizes médicas atuais, mas o estresse já é considerado, de forma geral, um fator de risco reconhecido.
Por fim, o Dr. Edval Gomes falou sobre o avanço dos testes genéticos como ferramenta de prevenção. O exame de rastreamento genético para doenças cardiovasculares, que há poucos anos custava entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, hoje pode ser feito por valores entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Ele é especialmente útil em casos de cardiomiopatias hereditárias, ajudando a diferenciar doenças que apresentam sintomas parecidos — as chamadas fenocópias — e permitindo tratamentos mais individualizados. Ainda assim, o médico recomenda que a decisão de realizar o teste seja sempre conversada com o médico responsável, já que um resultado alterado, mesmo sem doença manifestada, pode gerar uma ansiedade desnecessária no paciente.
Ao encerrar a participação, o cardiologista deixou um recado direto para quem pratica ou pretende praticar esportes: o exercício é importante demais para ser prejudicado pela pressa. Segundo ele, os resultados devem ser buscados com paciência, calma e constância mais orientação profissional, mais esforço genuíno, e muito menos recurso a drogas ou medicações desnecessárias.
